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RMD no lugar do TIG? O que muda no passe de raiz em tubulação de aço inoxidável

O RMD™ e outras variantes de curto-circuito controlado prometem uma raiz mais rápida e menos dependente da mão do soldador. O que os dados sustentam, o que ainda é afirmação de fabricante e o que precisa ser qualificado antes de trocar o TIG.

Um estudo de caso publicado pela Miller descreve uma empreiteira de tubulação que trocou a raiz TIG pela raiz RMD em inox 300. Montar a purga levava de 20 a 30 minutos por tubo; preparar o RMD, cerca de cinco minutos ou menos. Em um tubo de 18 polegadas, o ciclo TIG com purga e enchimento de arame tubular, que tomava algumas horas, caiu para perto de 30 minutos (Miller, estudo de caso). É um caso único, relatado por quem vende o equipamento. Mesmo assim, ele aponta onde o tempo realmente se perde em uma junta de inox.

Se a raiz é a etapa mais sensível da tubulação inoxidável, por que tanta oficina ainda resolve o problema com a habilidade de poucos soldadores e com uma purga que consome mais tempo que o próprio arco? Parte da resposta é cultural: quem testou MIG/MAG na raiz anos atrás e abandonou o processo guarda a lembrança. A outra parte é técnica, e mais interessante: o curto-circuito de hoje não é o de antes, mas também não é uma solução universal.

Este texto separa o que a tecnologia faz do que se afirma sobre ela, e o que as fontes independentes confirmam do que vem de catálogo. No fim, uma lista do que verificar antes de levar o processo para a produção.

Raiz em inox: onde o risco e o tempo se concentram

A raiz de uma tubulação soldada de um lado só não tem segunda chance. Falta de fusão na parede do chanfro, concavidade e penetração excessiva ficam escondidas no interior do tubo e só aparecem no ensaio radiográfico, no teste de estanqueidade ou, pior, em serviço. No inox, soma-se um problema: a face interna é a que toca o fluido e a que sofre com a oxidação quando o ar entra em contato com o metal quente.

Por isso a prática consolidada é o TIG com purga de argônio. A purga desloca o ar e evita os óxidos pesados que degradam o metal de base, o chamado açucaramento (The Fabricator, J. Byrne, Miller). A qualidade é alta, mas o custo aparece em outro lugar: tamponamento, vedação da junta, ventilação, tempo de espera, e tudo isso cresce com o diâmetro e o comprimento do trecho. O processo exige ainda soldador com bastante prática em TIG, perfil escasso em muitas regiões.

E o MIG/MAG convencional por curto-circuito? O mecanismo explica a má fama. A cada curto, a corrente sobe de forma abrupta, a gota é destacada com força e a poça se agita. A TWI aponta o alto nível de respingos associado às oscilações de corrente e tensão do modo convencional (TWI, MIG/MAG: developments in low heat input transfer modes). Na raiz, essa agitação pode jogar metal líquido contra a parede do chanfro, onde ele solidifica sem fundir, dando falta de fusão. O soldador compensa com técnica, e é aí que o processo vira dependente de habilidade.

Isso não significa que o curto-circuito convencional falhe sempre. Uma dissertação da UFU sobre dutos de aço carbono de pequeno diâmetro e parede fina encontrou resultados razoáveis com o modo convencional, em um envelope operacional estreito e uniforme (UFU, 2011). A questão é a margem: quanto o processo perdoa de variação de abertura, de stick-out e de posição.

O que muda quando o curto-circuito é controlado

No modo convencional, o ciclo de curto-circuito ocorre tipicamente entre 50 e 150 vezes por segundo, e a corrente segue o que a tensão de referência impõe. Nas variantes controladas, a fonte, digital, modela a forma de onda da corrente.

A TWI observa que, apesar das diferenças, os sistemas compartilham uma ideia: reduzir rapidamente a corrente imediatamente antes da reabertura do arco, para que a gota se destaque com menos força e gere menos respingo (TWI).

Tratar todas como se fossem a mesma tecnologia, como o texto original fazia, esconde diferenças que importam na hora de escolher equipamento e qualificar procedimento:

TecnologiaFabricanteComo controla a transferênciaO que vale saber
RMD™ (Regulated Metal Deposition)MillerO sistema antecipa o curto-circuito e reduz a corrente disponível para uma transferência consistenteFoco histórico em raiz de tubulação; mesma plataforma pode rodar variantes pulsadas
STT® (Surface Tension Transfer)Lincoln ElectricControle direto da corrente, que ajusta o calor independentemente da velocidade do arame; a mudança de stick-out não altera o calorProcesso patenteado; amplamente usado em raiz de dutos
CMT (Cold Metal Transfer)FroniusAlém da corrente, integra o movimento do arame, que recua no curto-circuitoExige alimentador e tocha específicos; a maioria das aplicações é mecanizada ou automatizada

Fontes: Miller, Lincoln Electric, TWI.

A TWI compila ainda o que os fabricantes alegam: redução de 5% a 30% no aporte de calor e capacidade de ponte de abertura de até 4,8 mm. São valores de catálogo, não medições independentes. No Brasil, o tema tem trabalho acadêmico próprio: o LABSOLDA, da UFSC, estuda há anos o curto-circuito com controle de corrente aplicado ao passe de raiz (Dutra e Gonçalves e Silva, Soldagem & Inspeção, 2008).

RMD™: onde estão os ganhos potenciais

O que o RMD™ faz, em termos práticos, é entregar uma gota por vez de forma regular, com a poça relativamente calma. O fabricante descreve, com apoio de filmagem de alta velocidade, ondulações pequenas na poça que favorecem a fusão com a parede do chanfro. Em consequência, o comprimento do arco permanece estável mesmo quando o stick-out varia, um problema típico de soldador em início de aprendizado nas posições de 4 a 6 horas (Miller).

A técnica de operação também muda. Em curto-circuito convencional, o soldador costuma posicionar o arco na borda dianteira da poça. No RMD™, o fabricante orienta manter o arame no centro da poça e não favorecer o lado alto de uma junta desalinhada. A lógica é deixar a regulação da fonte fazer o ajuste.

A tabela abaixo reúne as afirmações quantitativas mais citadas, quem as faz e como tratá-las. A coluna da direita é opinião editorial, não dado de fonte.

AfirmaçãoOrigemComo tratar
Velocidade de deslocamento de 6 a 12 pol/min (cerca de 150 a 300 mm/min), contra 3 a 5 pol/min no TIG em posição fixaMiller (fabricante)Ordem de grandeza útil; medir no seu spool, com a sua geometria
Soldador novo proficiente em menos de dois dias; experiente em menos de duas horasMillerAprender a operar não é qualificar; o soldador ainda precisa ser qualificado no procedimento
Pontes de abertura de até 3/16″ (cerca de 4,8 mm) e tolera desalinhamentoMiller; a TWI cita 4,8 mm como valor de fabricantesLimite declarado, não garantia; validar com as tolerâncias reais de ajuste
Possível eliminação do passe quente, com garganta de raiz de 3,2 a 6,3 mmMillerDepende da espessura, do passe de enchimento seguinte e da EPS
Ganho de produtividade de 100% a 400%MillerSem processo de referência nem condições; não usar como promessa
Tubo de 18″: de algumas horas (TIG com purga e arame tubular) para cerca de 30 min (RMD sem purga e arame tubular)Estudo de caso Miller com empreiteiraCaso real, porém único e publicado por fabricante
Abertura de 4 mm preenchida em passe único em chapa de 5 mm de 316L, mais rápido que SMAW e TIGTrabalho acadêmico sobre curto-circuito modificado (autoria e data a confirmar na publicação original)Resultado de laboratório em chapa; não extrapolar para tubo em posição

Fontes: Miller, Miller Europa, estudo de caso Miller, TWI, trabalho acadêmico.

Purga interna: onde a economia pede mais cuidado

É aqui que o artigo original era mais generoso do que as fontes permitem. A promessa de dispensar a purga é real, mas está atrelada a uma lista de condições, a um tipo de material e a um tipo de serviço.

A lógica proposta pelo fabricante é física: com transferência calma, o gás que sai da tocha não é perturbado e atravessa a abertura da raiz; como a poça solidifica rápido, a proteção só precisa durar pouco (The Fabricator, J. Byrne). Para qualificar um procedimento sem purga em inox série 300, o mesmo autor lista cinco condições:

  1. Abertura de raiz mínima de 1/8″ (3,2 mm) em toda a circunferência.
  2. Limpeza do interior e do exterior do tubo, com escova específica para inox, a pelo menos 1″ (25 mm) da junta.
  3. Arame inoxidável com alto teor de silício, como 316LSi ou 308LSi.
  4. Mistura gasosa formulada para o processo, como 90% hélio, 7,5% argônio e 2,5% CO₂, ou 98% argônio e 2% CO₂.
  5. Bocal cônico na raiz, para concentrar a cobertura de gás.

O próprio fabricante reconhece que sobra um pouco de óxido na face interna, que costuma se soltar com o resfriamento e que ele considera dentro dos padrões para petróleo, geração de energia e petroquímica. Não atende, segundo a mesma fonte, serviços de alta pureza como farmacêutico, semicondutores e alimentos. E, segundo o autor, aplicações em duplex de alta pureza ainda exigem TIG na raiz (The Fabricator; Miller). Em qualquer caso, trocar o processo obriga a requalificar a EPS.

O que dizem as fontes independentes?

  • Um artigo da Welding in the World (2023) soldou 304L com GMAW de forma de onda controlada, sem gás de proteção interno. Os testes de polarização mostraram resistência à corrosão por pite semelhante à de soldas de referência feitas com TIG e com GMAW sob purga. O potencial de repassivação foi comparável; o potencial de pite, um pouco menor (McNicol et al., Springer). Vale notar que a soldagem foi feita por equipe da Lincoln Electric, com um coautor da empresa, e que o resumo fala em “forma de onda controlada”, sem apontar uma tecnologia específica.
  • Um estudo publicado na Corrosion Science sobre raiz de GMAW em tubulação de 316L concluiu que a purga de argônio melhorou a resistência ao pite. As soldas sem gás interno tiveram mais ferrita e maior segregação de cromo e molibdênio (ScienceDirect, 2025; resumo consultado, texto completo não acessado).
  • O centro de pesquisa Ma2JIC, da Ohio State, afirma que a soldagem sem gás interno com curto-circuito modificado existe há cerca de 20 anos e ainda foi pouco adotada em serviço corrosivo, com diferenças de coloração e de pite na zona afetada pelo calor do lado de trás. O projeto seguinte inclui austeníticos e duplex (Ma2JIC/OSU).
  • Artigos da conferência ASME PVP, de autores ligados a operadoras e projetistas, avaliaram propriedades mecânicas e de corrosão de soldas sem purga contra requisitos de serviço corrosivo e criogênico do ASME B31.3 (ASME PVP, resumo). Quem decide nesses projetos testa caso a caso.

Em síntese: para tubulação industrial geral, com serviço de corrosividade moderada, há base técnica para qualificar um procedimento sem purga. Para serviço agressivo, criogênico, duplex ou higiênico, a resposta depende do projeto e de ensaios.

Há ainda a questão da aceitação. O nível de oxidação tolerado na face interna é definido em contrato. Para tubo sanitário, as referências são a AWS D18.1, a AWS D18.2 e o ASME BPE; para tubulação em geral, a PFI publicou a norma ES-50, que traz fotografias de referência de coloração para as partes escolherem (Tube China, a partir do Tube & Pipe Journal). Combine o nível aceito com o cliente antes de soldar, não depois.

Raiz, enchimento e acabamento: montando a sequência

A ideia econômica é que a raiz deposite metal suficiente para suportar o calor do primeiro passe de enchimento, que pode ser GMAW pulsado ou arame tubular, e que em certos casos se dispense o passe quente em TIG (Miller). O ganho vem do conjunto, não da raiz sozinha. Mas a condição é de procedimento: espessura, fusão entre passes e temperatura de interpasse precisam constar na EPS.

Um ponto que o original apresentava de modo simplificado: usar o mesmo arame e o mesmo gás em todos os passes. O artigo de Byrne observa que o enchimento e o acabamento pulsados funcionam desde que o gás tenha pelo menos 80% de argônio. A mistura rica em hélio sugerida para a raiz sem purga não satisfaz essa condição (The Fabricator). Ou seja, a sequência de um gás só exige escolher a mistura pensando nos dois passes e qualificar a escolha. A Miller chama de Accu-Pulse™ a sua variante de pulsado com controle de comprimento e largura do arco; outros fabricantes têm soluções equivalentes.

A mecanização reduz a variabilidade de velocidade de deslocamento e de stick-out. Um documento de fornecedor de acessórios relata que uma fonte multiprocesso acoplada a um sistema de carro de tubo, com RMD na raiz, rendeu o equivalente a cerca de três soldadores manuais em uma oficina (USA Energy Fabrication, material do fornecedor). É o relato de uma oficina, não uma regra. A TWI observa que a maior parte das aplicações de CMT é mecanizada ou automatizada, em parte pelo peso da tocha (TWI). Em qualquer caso, a mecanização cobra um ajuste de montagem mais consistente.

O que verificar antes de levar a tecnologia para a produção

  1. Serviço e especificação. O projeto permite o processo e a ausência de purga? Serviço corrosivo, criogênico, sanitário ou duplex mudam a resposta.
  2. Material. Inox austenítico série 300 é o campo em que há mais relato. Fora dele, exija evidência específica.
  3. EPS e RQPS. Processo, consumível, gás, posição e geometria entram como variáveis. Defina os ensaios, incluindo dobramento, macrografia, ensaio não destrutivo e, se o contrato pedir, corrosão.
  4. Ajuste e limpeza. Abertura de raiz, ponteamento consumido pelo passe e limpeza do interior e do exterior seguem a documentação do fabricante do equipamento.
  5. Gás e arame. Escolha a mistura considerando raiz e enchimento. Confirme o teor de silício do arame.
  6. Critério de aceitação da face interna. Escolha o nível de coloração aceito (AWS D18.2, ASME BPE ou PFI ES-50, conforme o caso) antes da qualificação.
  7. Equipamento. Fonte com o processo, alimentador, tocha e bocal adequados. Se for mecanizar, inclua o dispositivo de abertura de raiz.
  8. Soldador. O soldador é qualificado no procedimento específico, na posição do trabalho.
  9. Piloto com métricas. Solde corpos de prova e uma junta real, com ensaio. Meça o tempo total por junta, incluindo montagem de purga, esmerilhamento e retrabalho, antes e depois.

O que sobra da pergunta

O curto-circuito controlado melhorou de fato a raiz em MIG/MAG: reduz respingos, estabiliza a poça e torna o processo menos dependente de habilidade. Os relatos de produtividade são consistentes na direção, mas variam em tamanho e quase sempre vêm de quem fabrica ou vende. A dispensa da purga é o ganho mais atraente e o que mais exige cautela.

A pergunta útil, portanto, não é se o RMD™ funciona. É em quais juntas da sua fábrica ele pode substituir o TIG com segurança, e quanto isso vale depois de contar montagem de purga, retrabalho e requalificação. Se você já testou o processo em inox, o que mais surpreendeu: o ganho de tempo, o aspecto interno da raiz ou a curva de aprendizado do soldador?

Referências

Usadas para fundamentar o artigo

Instituição / autorTítuloDataLinkO que ajudou a verificar
Miller ElectricRMD™ MIG Welding Process Improves Stainless Steel Pipe Fabricationpublicado em 16/08/2024linkPrincípio do RMD, velocidades, 100–400%, condições sem purga, limite de alta pureza
Miller Electric (Europa)RMD® MIG Process Enhances Stainless Steel Pipe Fabricationsem data na cópia consultadalinkAbertura de 5 mm (3/16″) e garganta de raiz de 3,2 a 6,3 mm
Miller ElectricPipe Contractor Eliminates Back Purge on Stainless Steel Pipe Weldssem data na cópia consultadalinkTempos de purga e do tubo de 18″ no caso da empreiteira
J. Byrne (Miller), The FabricatorHow to weld 300 series pipe without back purge welding23/05/2019, atualizado em 07/12/2023linkSugaring, cinco condições, requalificação de EPS, limite de gás para pulsado
TWIMIG/MAG – Developments in Low Heat Input Transfer Modes19/10/2015linkDiferenças entre RMD, STT e CMT; 5–30% de calor; 4,8 mm; mecanização do CMT
Lincoln ElectricSurface Tension Transfer (STT)folheto de 2005/2006 (NX-2.20)linkPrincípio do STT e controle de corrente
McNicol, Narayanan, Sridhar, FinkCorrosion resistance of austenitic stainless steel welds with no-backing gas, Welding in the World 6714/12/2022 (vol. 2023)linkResistência ao pite sem purga em 304L (apenas resumo)
Autores do estudo, Corrosion SciencePitting corrosion mechanism of root pass GMAW weld metal in stainless steel pipeline with and without internal argon filling2025linkEfeito da purga na resistência ao pite em 316L (apenas resumo)
Ma2JIC / Ohio StateNo Backing Gas Welding of Austenitic and Duplex Stainless Steelssem data na páginalinkHistórico e limites da soldagem sem purga
ASME PVPEvaluation of Mechanical and Corrosion Properties of Stainless-Steel Weldment Using GMAW Modified Waveform Short Circuit Welding Process Without Backing Gas (paper 123088)sem data no resumolinkAvaliação contra requisitos do ASME B31.3 (apenas resumo)
Tube & Pipe Journal (via Tube China)Pipe Fabrication Institute issues standard on purging pipesem data na cópia consultadalinkExistência e finalidade da PFI ES-50
UFUAplicação de processos MAG curto-circuito convencional e controlado na soldagem de dutos de aço carbono2011linkDesempenho de STT, RMD e CMT em parede fina
Dutra e Gonçalves e Silva, UFSCMIG/MAG – Transferência Metálica por Curto-Circuito sob Controle da Forma de Onda da Corrente2008linkFundamentos do controle de corrente no curto-circuito
USA Energy Fabrication / Jimmy JammerPipe Jammer (material do fornecedor)sem datalinkRelato de mecanização na raiz com RMD
Autores a confirmarModified Short Arc GMAW Techniques for Welding a Root Passsem data confirmadalinkResultado em chapa de 316L de 5 mm (apenas trecho)

Leitura complementar (consultadas apenas em parte)

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